terça-feira, outubro 14, 2008

António Gancho (1940-2005)

Morreu no Telhal, onde esteve "encarcerado" 38 anos.
Deixou poemas que dizem da sua lucidez e da sua liberdade.




SOBRE UMA MANHÃ QUALQUER

Manhã de ouro lhe poderíamos chamar
se de ouro fora a primeira manhã
Adão inconfessado,
e nada saberemos da primeira manhã
se afinal de ouro se afinal de prata.
Ainda possível ter sido de estanho?
A primeira manhã assim imaginada estanho
e a cena desenrolar-se-á com maçãs de estanho,
aves de estanho, rios de estanho...
Adão não seria de estanho?
Adão inconfessado, e nada se saberá da manhã original.
A primeira manhã, a primeira luz,
a primeira vida, a primeira lua
Tu, querida, o desejarias saber, o sei,
era teu desejo saber de que material
fora a primeira manhã!
Evidentemente que
(e aqui já cansaço a obcecar a caneta)
evidentemente que dizia
etc., etc. e a respeito da primeira manhã afinal
que não interessa sabê-lo.
Olha, morre como o cigano, o pior é ires à escola.
Ah, os poetas são decididamente afectados.
Que raio de ideia esta de saber da primeira manhã?
Londrina a de hoje,
e basta para tomar um excelente duche quente
com a água a pôr fervura na pele
e mais nada.
Da primeira manhã,
Adão que se faça poeta e no-lo diga que metal.

António Gancho, in o ar da manhã, assírio & alvim, 1995

3 comentários:

naturline disse...

Que lindo teu blog Adar com um texto maravilhoso. muito boas, mo' gostou muito, da mesma maneira que o blog, obrigado muito.

Paula Raposo disse...

Obrigada pela partilha! Belo poema. Beijos.

Violeta disse...

Gosto muito de poesia...