terça-feira, outubro 07, 2008

António Borges Coelho: 80 anos

Transmontano, nasceu em Murça a 7 de Outubro de 1928. Ingressou num Seminário mas bem cedo perdeu a Fé. A mesma fora substituida por uma crença maior: a crença no Homem, nas "gentes de Boa-Fé".
A sua vida é um exemplo, uma referência. Lutador antifascista, desde jovem militou e foi dirigente do MUD Juvenil, tendo sido funcionário do Partido Comunista Português. Preso no Aljube e em Peniche, passou anos nas prisões e sofreu as represálias infligidas pela PIDE aos que ficaram, após a fuga de Peniche, em Janeiro de 1960. Foi ainda em Peniche que casou com a Isaura, também ela uma lutadora pelos direitos cívicos das Enfermeiras, e, por isso, presa, julgada e condenada. Pai e avô babadíssimo da Sónia e do Francisco.
Historiador e investigador incansável, ao seu labor honesto e meticuloso se devem os primeiros trabalhos que abriram caminhos e desfizeram mitos da História de Portugal, como bem recordou Cláudio Torres. Após o 25 de Abril ensinou na Faculdade de Letras de Lisboa. Conheço alguns ex-alunos que o recordam não só como Mestre e Pedagogo mas, sobretudo, como Humanista. Com um imenso respeito. O mesmo respeito com que o Professor Borges Coelho os tratava, mesmo quando as divergências ocorriam.
Perseguidor da utopia universalista, acredita que os Homens podem transformar o mundo e torná-lo melhor. Acredita no diálogo, nos consensos mínimos, no poder das palavras e na aproximação dos contrários, se com boas-vontades. Como se todos pudessemos ser "crianças crescidas" e ter o dom da inocência dos primeiros olhares. Acreditar. Confiar. Perseguir. Lutar.
Amante da poesia, escreveu em Janeiro de 1957:
LIBERDADE
... amo-te de menino
Encontrei-te
Num mundo de operários
Na prisão.
É TEMPO ! É TEMPO!
O nosso Povo sofre
Sai para a rua
Com uma flor na mão!
Foi este o poema escolhido para decorar o enorme bolo comemorativo dos 80 anos de António Borges Coelho. Um festa da iniciativa da equipa do Le Monde Diplomatique, edição portuguesa, que Borges Coelho dirigiu entre 1999 e 2005.
Eu estive lá e foi emocionante ver e sentir aquela imensidão de pessoas dos mais variados quadrantes políticos e culturais irmanados num objectivo comum: homenagear um Homem e um Amigo de excepção. A mostrar que não existem barreiras que resistam, se os Homens quiserem. Pessoalmente sinto-me uma privilegiada pela sua amizade.
Assinalando a data, a Caminho reeditou Portugal na Espanha Árabe, uma obra pioneira, que foi apresentada por Cláudio Torres.

3 comentários:

João Videira Santos disse...

Continuamos pela Avenida da Liberdade e escutando os gritos da memória da Júlia...

TMara disse...

justa homenagem e sensível expressão a deste teu texto. como usual.
Boa semana
Bjs
Luz e paz

Paula Raposo disse...

Lindíssimo o teu post. Não fui sua aluna, mas gostaria de ter sido. Muitos beijos.