sábado, julho 19, 2008

uma espécie de traição

Sou leitora de Eduardo Lourenço e admiro especialmente dois dos seus livros "Sentido e Forma da Poesia Neo-Realista" e "O Labirinto da Saudade" que sempre recomendo a quem queira reflectir nessa coisa do sentir e do ser português. O livro foi lançado em 1978 e desde então tem sido uma espécie de manual para os seres que se interrogam e procuram signos identitários. Em entrevista recente Eduardo Lourenço confessa ter escrito o livro em 1958, quando se encontrava no Brasil, tendo subjacente a problemática africana e a colonização, temáticas que então se desenhavam para todos os povos colonizadores e que para os portugueses desembocaria na Guerra do Ultramar que durou de 1961 a Abril de 1974.
Fiquei admirada. -- Então o Labirinto da Saudade não é contemporâneo da primeira edição? Então o professor fazia análises destas nos anos cinquenta e nunca as publicou? Nunca as deu a conhecer? Nem sequer fora de Portugal? Teria sido uma excelente ajuda para os que aqui continuavam a debater-se dia-a-dia com a opressão silenciosa.
«nessa altura, eu não podia publicar aquele tipo de reflexão sem abdicar de vir a Portugal. E eu disso nunca abdiquei. Não era um militante por conta própria ou por conta de algum partido. Não tinha nenhuma espécie de importância política que me colocasse nesse papel. Era a título puramente privado que eu fazia essas reflexões. (...) E naquela altura ninguém tinha ideia que dali a uns anos o regime pudesse terminar.»
No Brasil Eduardo Lourenço conviveu com um núcleo de exilados políticos e dessa convivência escreveu alguns artigos para os jornais da oposição, como o Portugal Democrático, mas sob pseudónimo. Talvez seja demasiado simplista esta minha análise, mas a verdade é que o professor preferia não publicar a afrontar o regime. E, no entanto, ter-nos-iam sido, na altura, de extrema importância as suas reflexões. Como o vieram a ser no pós-25 de Abril.
Sempre estarei grata ao professor Eduardo Lourenço por ser o pensador e o grande trabalhador intelectual que ninguém contesta. Mas, confesso, senti-me traída pela sua postura «oposicionista». Como se de um «herói com pés de barro» se tratasse.

1 comentário:

José António Barreiros disse...

Minha querida Júlia,
O problema é a mitificação a que certas pessoas foram sujeitas.
A Igrejas têem esse problema ao canonizarem os seus mártires, os sistemas políticos também, transformando-os, aos vulgares humanos, em santinhos de pau carunchoso e estátuas com pés de barro.
Não conheço do EL a biografia para falar com propriedade. O Vergílio Ferreira, que foi muito querido quando escreveu o «Vagão J» e seviciado pelo Alexandre Pinheiro Torres quando prefaciava o «Rumor Branco» do Almeida Faria, gostava dele. O Mário Soares também mas esse gosta praticamente de todos.
O EL será alguém que do ponto de vista político terá tido as suas hesitações, os seus conformismos, as suas dúvidas. Por ser inteligente deve-lhe ter sido mais difícil ter ideias simples. POr estar fora do país deve-lhe ter sido mais complicado ter informações correctas.
Sejamos, porém, justos, reconduzindo-o à sua dimensão humana.
Todos sabemos os avençados do SNI que hoje ombreiam com causas correctas, sujeitos ao mesmo processo de branqueamento que faz com que hoje o Gunter Grass seja uma outra pessoa que não um oficial das SS.
Na vida não há necessariamente apenas militantes e traidores. Todos, mesmo os timoratos, deram a sua ajuda para a formação da consciência deemocrática.
Saibamos ser fraternos.
«As horas de dor tornam mais funda a amizade entre os homens. O sofrimento comum aproxima e faz pensar numa solução comum. Assim nasce o amor por seres desconhecidos. Qualquer coisa de semelhante ao respeito que uma mãe sente pela angústia de uma outra mãe. Uma mesma aspiração junta homens que se desconhecem. Uma palavra ou um olhar que indique essa identidade de anseio traz aos lábios esta expressão carinhosa: “Eu sou teu irmão!”, “Eu sou teu companheiro!”». Escreveu isto Álvaro Cunhal.