quinta-feira, outubro 29, 2009

Francisco Castro Rodrigues: Um Cesto de Cerejas

Editado pela Casa da Achada - Centro Mário Dionísio, numa excelente organização (introdução e notas) de Eduarda Dionísio, estas conversas com Francisco Castro Rodrigues vêm colmatar uma grande lacuna e fazer luz em muitos factos ocorridos na Lisboa político-cultural dos anos quarenta e inicios de cinquenta do século passado.
Francisco Castro Rodrigues, que nasceu em Lisboa em 1920 e se formou em arquitectura na Escola de Belas-Artes de Lisboa, dá-nos conta das suas memórias enquanto estudante, dirigente do Sindicato dos Arquitectos Portugueses e da Sociedade Nacional de Belas-Artes, activista político ligado ao PCP e ao MUD Juvenil, a cuja comissão central pertenceu, bem como das prisões pela PIDE que o levou aos calabouços com Mário Soares, Júlio Pomar, Rui Grácio, António Abreu, José Carlos Gonçalves e muitos dirigentes e aderentes juvenis naquele fatídico 1947.
Castro Rodrigues viveu intensamente o antes e o após Segunda Guerra Mundial, as lutas para que os artistas plásticos oposicionistas tivessem onde expôr as suas obras, e conta-nos como conseguiram ganhar as eleições na SNBA, em 1946, correndo com as direcções caducas que ali se mantinham e revitalizando aquela instituição, nomeadamente com a organização das EGAP's (Exposições Gerais de Artes Plásticas) que duraram de 1946 a 1956.
Com uma memória prodigiosa, Castro Rodrigues faz juz à memória de homens como Mário Dionísio, colocando no seu devido lugar o protagonismo fundamental que este assumiu em toda a luta oposicionista até 1952, altura em que saíu do PCP.
Na verdade Mário Dionísio foi e é uma figura incontornável da cena cultural portuguesa, e, inquestionavelmente um homem-chave na emergência e consolidação dos movimentos politico-sociais de então, como o MUNAF, o MUD, a CEJAD e outros, devendo-se a ele, MD,  a direcção da organização das EGAP´s, de forma discreta, como era da sua índole, mas com a força do carácter que também revestia. É dele, aliás, a introdução (não assinada) do catálogo da primeira EGAP, em Maio de 1946. E só veio a afastar-se das mesmas quando muitos dos artistas plásticos deixaram de cumprir o princípio da «obrigatoriedade de não pactuar com o regime», cedendo ao SNI na ida de alguns à Bienal de São Paulo em 1953.
Francisco Castro Rodrigues também se afastou do PCP (embora se mantivesse comunista) e foi viver para África, para o Lobito, em 1954, onde deixou obra e se manteve até meados dos anos oitenta.
Hoje vive nas Azenhas do Mar, ainda bastante atento e interveniente, como sempre, mas com  dificuldades de locomoção que necessariamente o limitam.
Um livro imprescindível para investigadores, sobretudo quando se sabe que, inexplicavelmente, as actas das reuniões da direcção da SNBA, precisamente dos anos 40/50, desapareceram. Pelo menos é o que nos dizem. Porque há muitos anos que os investigadores não têm acesso à biblioteca e aos arquivos da SNBA. 


Nota: Francisco Castro Rodrigues faleceu no dia 2 de maio de 2015, no Hospital de Santa Maria onde estava internado.  Nascera em Lisboa a 1 de Outubro de 1920. Tinha 94 anos.

1 comentário:

Conceição disse...

é como dizes Júlia. Livros como este fazem muita falta.
Um abração e boa semana