domingo, janeiro 18, 2009

Bento Gonçalves e o 18 de Janeiro de 1934

Muito se tem especulado sobre o posicionamento de Bento Gonçalves, então Secretário-Geral do Partido Comunista Português, acerca do 18 de Janeiro de 1934, que veio a designar de «anarqueirada».
Quando passam 75 anos sobre esse acontecimento, aqui ficam as suas declarações à PVDE quando, em 1935, foi preso com os restantes membros do Secretariado (Júlio Fogaça e José de Sousa).
Auto de Declarações de 25.Nov.1935
P - Desde quando faz parte do Secretariado do PCP?
R - Desde 21 de Abril de 1929; porém, deixei de estar na actividade do Secretariado durante o tempo da prisão e deportação, ou seja, desde 28.Set.1930 até 10.Março.1933, tendo reassumido o cargo algum tempo depois da chegada ao Continente. No Secretariado do PCP sempre exerceu a tarefa de Secretário-Geral e nesta qualidade continuou até à data da sua prisão.
P - Participou no 18 de Janeiro de 1934?
Tomou parte activa no movimento de 18 de Janeiro de 1934 dirigido contra a série de decretos promulgados em Setembro de 1933 que dissolviam os Sindicatos Independentes da classe operária; porém, não pefilha a afirmação segundo a qual esse movimento deveria ser caracterizado por uma Greve Geral Revolucionária, mas sim, por um Movimento de Greves Parciais e Manifestações de Massas, pela manutenção da liberdade de organização democrática dos Sindicatos Operários. No entanto, assume a responsabilidade de toda a Agitação e Propaganda e Actuação Antifascista conduzida pelo Comité Central do PCP, desde que é Secretário Geral.
(...)
(continuação no dia 6.Dez.1935)
P - Desde quando estava na ilegalidade?
R - Desde o mês de Agosto de 1933, não mais tendo trabalhado na sua profissão, mantendo-se à custa do financiamento que lhe era feito pelo PCP.
(...)
P - Assume a responsabilidade da agitação, propaganda e actuação antifascista conduzida pelo Comité Executivo do PCP?
R - Assume essa responsabilidade. Quer dizer: o combate do PCP conta o actual Governo e contra as suas leis anti-democráticas, excluindo quaisquer actos isolados de terrorismo contra os quais tem conduzido campanhas na imprensa clandestina do Partido. (Arq. da PIDE/DGS, proc. SPS 1664 - 4318)
Notas biográficas:
Bento António Gonçalves nasceu a 2 de Março de 1902, em Fiães do Rio, Portalegre. Filho de Francisco Gonçalves e de Germana Gonçalves, cedo vem para Lisboa mas fica orfão e é criado pela mãe adoptiva, Guilhermina dos Santos. Reside na Rua do Ferragial (baixo) 11-4º Dto, em Lisboa, na mesmo rua onde também morava Francisco Paula de Oliveira (Pavel) com quem convive desde criança, tendo-se tornado grandes amigos. Ambos virão a ser operários arsenalistas e vão apoiar-se na reorganização do PCP de 1929, sendo Pável o responsavel pela Juventudes Comunistas.
Após a prisão de 1935, Bento Gonçalves embarca no dia 8 Janeiro 1936 para Angra do Heroismo e, em 19 de Outubro desse mesmo ano, vai inaugurar o campo de concentração do Tarrafal, em Cabo Verde, onde vem a falecer.
«... o recluso Bento António Gonçalves faleceu no dia 11 do corrente [Setembro, 1942], pelas 19H35 vitimado por febre biliosa hemoglobimirica» (carta do Director da Colónial Penal de Cabo Verde, Tarrafal, nº 75/42 para Director da PVDE, de 12-9-1942, doc. 36 Proc. ref)

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