quinta-feira, janeiro 01, 2009

Uma charge pós-natalícia

«aqui vos deixo e vos dedico a minha última produção burlesca, brejeira, post-natalícia, suscitada por essa urticária consumista que nos assola...» disse o meu amigo Jorge Castro e, por que concordo com ele, venho partilhá-la convosco.
...
e lá se foi o Natal – essa quadra tão magana
enchendo a todos de gana de querer ser solidário
ao fundo um retardatário bate co' as botas no fundo
das costas ou cu se gostas de chamar p'lo nome os bois
a ver se logo se aconchega ao borralho
que está de arrebimba-ò-malho o tempinho cá na rua
e farto de ver a Lua anda o velhote da história
que tem seu mês de glória um só e em cada ano
triste e só anda este mano quem sabe vive de esmola
que a cena da Coca-Cola acabou já faz uns tempos
agora ele é só lamentos pela roupa vermelhusca
pela criançada cusca e aquela barbaça hirsuta
que seria coisa bruta não fosse ela alva de linho
corre pois ele para o ninho farto de prendas e renas
como se penasse penas por tanto a todos pesar
que com ele é só comprar – comprar – comprar – e comprar
não tem nada que enganar mas não há já quem o ature
e não sabe ele como fure este destino aziago
de do consumo ser mago e coisa de meter dó
ouvir-se-lhe o oh-oh-oh no espaço sideral
no centro comercial ou no écran de plasma
e a malta toda pasma de viver tanto o velhote
sem haver quem o enxote pois graça não tem nenhuma
a não ser aquela uma de favorecer as compras
ah não se ouvirem as trompas de alguma divina orquestra
dando ao Natal que nos resta personagens mais catitas
e acabar com as fitas de um pai natal que coitado
viverá desconsolado nos quintos do pólo norte
maldizendo a triste sorte de ter só com ele as renas
dores nas cruzes e as tais penas de vaguear tão sozinho
melhor muito melhorzinho ficaria o Nicolau
se em vez do banco de pau que o espera em seu ermo
a tal multinacional ao ermo pusesse um termo
e lhe desse companheira
roliça – doce – matreira – brincalhona – prazenteira
também de rubro vestida mas sem barba tão comprida
de precária situação ou com termo de contrato
mas que desvie o ancião do destino caricato
e lhe dê prendas a ele que tão farto está das penas
e das cenas com as renas e com razão afinal
e nos deixe no Natal o presépio cultivar
sem ter que comprar – comprar – oh-oh-oh
tão só comprar…

Jorge Castro

Nota: O Jorge Castro é um grande ser humano e um grande poeta. Pessoalmente sou uma privilegiada por tê-lo como amigo. Todos ficaríamos mais enriquecidos se conhecessemos melhor a sua obra.

2 comentários:

Paula Raposo disse...

Nem mais!!! Uma mais que justa homenagem a um Poeta que merece todo o nosso carinho. Felizmente também faço parte dos seus afectos...beijos para ti, porque os do Jorge já lhos dei...

OrCa disse...

Meninas, favores vossos que não mereço tantos... :-)

A vida é assim: flui. Nós, vogando nela, sempre atentos.

Grato pelo destaque, minha amiga, com beijos.