domingo, setembro 28, 2008

Maria Keil no Expresso de 27 Set 2008

A história dos azulejos que não querem ser defendidos

Maria Keil não compreende como anda a circular uma petição para a reposição dos seus azulejos no Metro
"Em que mundo é que vivemos, que põem coisas assim na Internet sem falar com ninguém?", interroga Maria Keil, a pintora, ilustradora e ceramista, actualmente com 94 anos.
Mais de três mil pessoas já subscreveram na Internet uma petição que a apresenta como vítima do Metropolitano de Lisboa, por este ter destruído alguns dos seus painéis de azulejos. Só que ninguém falou com a artista, que há muito chegou a acordo com a empresa. "A petição é um perfeito disparate", comenta, abismada com a história, "foram pegar nisto agora para quê? Quem querem atingir? É horrível".
O documento apresenta como recente um caso com mais de uma década. A sua criação é um autêntico fenómeno de 'bola de neve' típico da Net e dos blogues. Um pequeno comentário dá origem a um texto inflamado que deturpa os factos e cuja informação todos dão como certa. Em causa está a destruição de alguns dos painéis de azulejos de Maria Keil durante as obras de alargamento e remodelação de estações de Metro ocorridas nos anos 80 e 90. Especialmente em foco está a intervenção na estação dos Restauradores (em 1997), cujos azulejos foram irremediavelmente destruídos, enquanto que os da estação de São Sebastião serão repostos, mantendo o seu aspecto original, de acordo com o estabelecido entre a transportadora e a artista.
Os painéis de azulejos foram criados, a partir dos anos 50, por Maria Keil, que os ofereceu para as primeiras 19 estações do Metro, concebidas pelo seu falecido marido, o arquitecto Francisco Keil do Amaral. Em 1999 a artista criticara, em entrevista ao jornal 'Público', a destruição dos seus painéis dos Restauradores, sem que a empresa lhe tivesse comunicado sequer o que ia fazer. "Agora não posso refilar por me andarem a picar as paredes porque, de facto, dei tudo".
Foi uma referência a essa entrevista — a 9 de Agosto passado, por ocasião do 94º aniversário da artista —, no blogue de Júlia Coutinho ('As Causas de Júlia'), que veio a provocar uma cadeia de reacções.
Samuel Quedas leu o «post» e desenvolveu o assunto no blogue 'Cantigueiro', insurgindo-se por, "ao contrário de quase todos os arquitectos, engenheiros, escultores, pintores e quem quer que seja que veja uma obra pública alterada ou destruída sem o seu consentimento, Maria Keil não tem direito a qualquer indemnização". O bloguista acrescentou que no "Metro de Lisboa há juristas muito bons, que descobriram não ser obrigatório pedir nada, nem indemnizar a autora, de forma nenhuma exactamente porque ela não cobrou um tostão que fosse pela sua obra".
O atear da polémica
O texto não passou despercebido aos autores do blogue 'A Face Oculta da Terra', Carlos Alberto Augusto e Rui Mota, que, o transformaram numa petição.
Entre os signatários da petição — disponível em http://www.petitiononline.com/MK2008PT/petition.html — surgem nomes como o da médica Isabel do Carmo ou da coreógrafa Vera Mantero. Ambas referiram ao EXPRESSO não fazer ideia de que Keil se opõe à petição e que, caso soubessem, muito provavelmente não a teriam apoiado.
O número de signatários continua a crescer, assim como uma onda de críticas à administração do Metro ou à autarquia de Lisboa. Há mesmo um bloguer que já pediu a demissão do actual ministro da Cultura...
Contactado pelo EXPRESSO, Rui Mota diz que vão manter a petição tal como está, porque se trata de "um acto de cidadania" contra o "atentado ao património", independentemente da posição da ceramista sobre o assunto. Samuel Quedas afirma que não é responsável pela petição, que é inteiramente constituída pelo seu texto. Alexandre Costa
acosta@expresso.pt

5 comentários:

Teresa Castro Silva disse...

Sem blog, sem hábitos de escrita na net, deixo à autora deste blog, pessoa que não conheço mas respeito pelas suas habituais tomadas de posições frontais, emotivas, empenhadas, o meu abraço solidário.
Obrigada por tudo o que me tem mostrado, esclarecido, ensinado.

Teresa Castro Silva, de Loulé

Pedro de Azevedo Peres disse...

O abaixo-assinado "Reposição dos painéis de azulejos de Maria Keil pelo Metropolitano de Lisboa" é isso mesmo e nada mais.

Nunca tendo sido "...o que quer que seja" como levianamente Pitum (trato-o como assina, que não o conheço pessoalmente) afirma em missiva dirigida a este blog.

Que Maria Keil, nos seus 94 anos, entreveja nisto uma "confusão", entendo e respeito.

Que Pitum queira resguardar a sua mãe da recordação de momentos menos bons e de incómodos e sobressaltos, também compreendo.

Mas custa-me aceitar que antes de escrever o que escreveu, não tenha tido percebido o que de facto se passou.

A eclosão de um movimento de solidariedade e de apreço, por sua mãe, tardio é certo, mas autêntico.

Se incomodou a família Keil foi seguramente sem intenção.

E teve por certo virtualidades que mal antevejo.

Uma, por certo foi ter levado pelo menos uns tantos a visitarem a obra de Maria Keil e outros a revisitá-la e assim a terem-na presente.

Se artista eu fora que melhor homenagem poderia querer. Milhares cidadãs e cidadãos a darem o nome por mim.

PS: Não estive na génese da iniciativa apenas a assinei ... já tarde, pois que fiquei registado sob o número 3.748.

Ana rebelo disse...

Grande Julinha!!! Que grande salganhada aqui se gerou!! Gostei de ver! Beijocas para ti!

Júlia Coutinho disse...

Teresa Castro Silva,
Muito obrigada pelas suas palavras.
Apareça sempre.
Um abraço

Tiago Taron disse...

Porque será que o que nasce neste lugar (net) tem sempre esta tendência para o mito urbano, para a fábula, para o paredes meias verdade/mentira? Já agora uma correcção ao texto da petição, quando se fala dos Arquitectos e da necessidade de obter a sua aprovação para poder alterar a obra de arquitectura (que não é o caso dos paineis de M. Keil), a consequência da não autorização não é uma "salgada" indemnização mas apenas o direito do autor (arquitecto) a impedir que o seu nome continue a ser associado à obra. Uma espécie de recusa da paternidade a parir do momento em que o Arquitecto não se revê na obra alterada. Vale a pena transcrever o artigo do Código de Direitos de Autor: "1- O autor do projecto de arquitectura ou obra plástica executada por outrem e
incorporada em obra de arquitectura tem o direito de fiscalizar a sua construção
ou execução em todas as fases e pormenores, de maneira a assegurar a
exacta conformidade da obra com o projecto de que é autor.
2- Quando edificada segundo projecto, não pode o dono da obra, durante a
construção nem após a conclusão, introduzir nela alterações sem consulta
prévia ao autor do projecto, sob pena de indemnização por perdas e danos.
3- Não havendo acordo, pode o autor repudiar a paternidade da obra
modificada, ficando vedado ao proprietário invocar para o futuro, em proveito
próprio, o nome do autor do projecto inicial."
Por último admiro a família Keil, como todas as famílias que protegem os seus.