quinta-feira, janeiro 01, 2009

Lembrando Maria Helena Magro (1923-1956)

Maria Helena Alves Tavares Magro
(1 Janeiro 1923 - Dez 1956)
Começo o ano recordando uma mulher. Nada me seria mais grato. Uma mulher cujo nome raramente é referido e, quando o é, apenas engrossa o número dos anónimos que na clandestinidade viveram e sossobraram. Um nome, nada mais. A que nunca se associa um rosto, um feito, uma ideia, um sentimento. Se fosse viva, completaria hoje 86 anos.
Maria Helena Alves Tavares Magro nasceu no primeiro dia de Janeiro de 1923, em Lisboa, na freguesia de Santos-o-Velho. Filha de Francisco Félix Tavares Magro e de Flora Carlota Alves, era irmã e cunhada dos dirigentes comunistas José Magro e Aida Magro, respectivamente.
Emancipada pelo pai aos 18 anos, desde muito cedo se envolveu na luta social e política, primeiro no bairro de Alcântara, onde viveu até aos 22 anos e, ao entrar para a Faculdade de Direito no ano lectivo 1940/41, nas lutas académicas que então ocorreram contra o aumento das propinas.
Aluna aplicada, Maria Helena Magro sempre «alcançou nas escolas altas classificações que lhe permitiram ganhar a isenção de matriculas e vários outros prémios», como refere uma sua biografia resumida que se encontra nos arquivos da PIDE/DGS.
Com o irmão José e a cunhada Aida, a que se juntam outros jovens da zona como «Mário Castrim» e Alda Nogueira desenvolvem intensa actividade na freguesia de Alcântara e arredores: pedem livros e fundam uma biblioteca, organizam bailes e quermesses para realização de fundos, angariam roupas e medicamentos para apoio aos presos políticos e famílias. Conta-nos Aida Magro a estratégia utilizada para conseguirem o apoio do padre da freguesia: a cedência do espaço em troca de uma parte dos lucros para a paróquia. Ousados, chegam a convidar a mulher de Carmona para inaugurar uma das quermesses; a senhora não comparece mas contribui com uma nota de 100 escudos, o que para a época era uma fortuna.
Em meados de 1945, após a Segunda Guerra Mundial, aceita o convite para funcionária clandestina do PCP. Segue, com meses de intervalo, o irmão e a cunhada. O curso de Direito fica incompleto. Tem apenas 22 anos.
Sabe-se que foi simultaneamente um quadro técnico e político. Clara é o pseudónimo que adopta para escrever em O Militante, enquanto que em o 3 Páginas e A Voz das Camaradas, de que é uma entusiasta impulsionadora e activa colaboradora, será Manuela.
Consciente da situação desigual entre homens e mulheres e das discriminações por estas sofridas, incluindo no seio partidário, foi uma infatigável defensora da igualdade de direitos e uma defensora da integração das mulheres do partido no trabalho político como forma de emancipação.
Assim, em Maio de 1948 escrevia no boletim 3 Páginas (que antecedeu A Voz das Camaradas), dando-se como exemplo, na tentativa de incutir nas funcionárias comunistas o gosto pelo trabalho político, para além da principal tarefa da guarda das casas clandestinas:
«Tenho a meu cargo, entre outras tarefas, a do recorte dos jornais: recorto os artigos sobre a vida nacional e internacional que têm maior interesse, e vou-os catalogando conforme os assuntos: Assembleia Nacional, Organização Corporativa, etc. Colo depois estes artigos, com indicação da data e nome do jornal, em folhas que entram nas secções respectivas. Assim, os camaradas podem encontrar facilmente as noticias e dados concretos de que precisem para o seu trabalho. Esta leitura cuidada do jornal, que todas nós deviamos fazer diariamente, tomando-a como uma tarefa partidária, é muito útil porque alarga o nosso conhecimento sobre as condições de vida do povo, política salazarista, política internacional, etc.» e, lembrando que nem todas sabem ler e escrever, diz ainda: «Acho que este trabalho podia ser feito por todas as amigas que leiam facilmente. (...) A nossa instrução politica é uma tarefa que não devemos esquecer.» (...) As amigas que não sabem ainda ler ou lêem com dificuldade, devem colocar aos camaradas da casa, muito seriamente, a tarefa de auxiliá-las, porque saber ler faz muita falta, camaradas.»
Fora das fileiras partidárias, Helena Magro recorda as palavras de Lenine: «esquecendo as mulheres, é impossível interessar as massas pela política» para defender, num documento da sua autoria,(1) que a «palavra de ordem que mobilizará as mais amplas massas femininas é a luta pela Paz» porque «a luta pela Paz é comum a todas as camadas, a todas as classes, une as pessoas de todas as ideologias e crenças.» Reconhecendo que em todos os campos - económico, social, político e jurídico - as mulheres têm reivindicações específicas a apresentar e advogando a criação de «uma organização feminina nacional, legal, que defenda as justas reivindicações da mulher em todos os campos», Helena Magro salienta, por outro lado, a necessidade de homens e mulheres se manterem lado a lado na luta por interesses comuns.
Através do referido 3 Páginas, de Maio de 1948, ficamos a saber como foi o início da sua vida na clandestinidade. «Quando eu vim, nos primeiros meses senti-me deslocada: não conhecia o camarada, a vida era muito diferente da que eu tivera, e também daquela que eu julgara vir encontrar e, principalmente, tinha um medo muito grande de não acertar, de não conseguir ser útil ao Partido. Mas tudo isso passou já e não esqueço o que o nosso jornal contribuiu para isso». O camarada a que alude é Joaquim Pires Jorge, que foi o seu companheiro de vida.
O último artigo que escreveu, «A Importância da Cultura Geral», foi publicado em A Voz das Camaradas de Novembro de 1956. Nele faz um apelo ao estudo abrangente e metodológico de forma a que os comunistas assimilem os conhecimentos humanos acumulados ao longo dos anos, enriquecendo a memória e desenvolvendo o sentido crítico, concluindo:
«O dia virá em que outras tarefas nos serão confiadas e nessa altura todos os conhecimentos que agora vamos adquirindo nos serão preciosos. Por isso não podemos deixar passar os anos, uns após outros, sem aproveitar utilmente o tempo que não volta. (...) O estudo auxiliar-nos-á a assimilar o marxismo, tal como o marxismo nos ajuda a fazer um estudo sério e útil das outras ciências.»
Faleceu em finais de 1956. Tinha 34 anos. A sua saúde débil não resistiu aos rigores da clandestinidade. Nem aos abortos a que se viu constrangida, também eles, clandestinos. Deixou uma filha, a Clara.

(1) - «As Mulheres são uma força decisiva na luta pela Paz, pelo Pão, pela Terra, pela Democracia e pela Independência Nacional», in ANTT- Arq PIDE/DGS, Procº SC 173-GT, NT 1395
Nota: Retrato de M Helena Magro feito por Margarida Tengarrinha e publicado no boletim A Voz das Camaradas das Casas do Partido, nº 18, de Abril de 1961.

4 comentários:

Paula Raposo disse...

Mais uma vez obrigada, Júlia, pela partilha da história connosco. Muitos beijos.

Anónimo disse...

Obrigada por recordares o que jamais poderemos esquecer, ou o que é preciso saber.

Um beijo
Titas

A♥ disse...

Júlia,
Obrigada por este grande post.
Um beijo
Ana

Júlia Coutinho disse...

Querida Titas,

Que alegria me dás com o teu aparecimento aqui pelo meu cantinho!
Tenho tantas saudades tuas...

Ainda bem que existem pessoas que apreciam os meus apontamentos memorialistas.
Grande, grande abraço.

Para ti e para todos os que me visitam e comentam, um Bom Ano 2009.
E que pare rapidamente o genocidio na faixa de Gaza.