quarta-feira, fevereiro 18, 2009

Arte Resistente: Júlio Pomar


























O Almoço do Trolha, 1947



Évora [Gadanheiro, Missão Estéticas de Férias, 1945] antecede o meu engagement político activo. De regresso ao Porto onde havia conhecido Guilherme de Carvalho, antes da sua passagem à clandestinidade, entro numa fase intensa de actividade quer como membro das Juventudes Comunistas, quer nas actividades estudantis legais - que se terminaram por um processo disciplinar que me interditava temporariamente a frequência da escola [Belas-Artes do Porto], e aonde nunca mais voltei. Pouco tempo me sobrava para pintar ou desenhar, mas lá fiz como pude. Acrescente-se que entretanto me viera parar às mãos a orientação de uma página semanal de arte no diário do Porto, A Tarde, onde escrevi artigos sobre artigos em que a intervenção política da (e na) Arte alinhava segundo o neo-realismo no topo da vaga.

Quando se formou o MUD Juvenil, [Julho, 1946] eu fiz parte da primeira comissão central, onde estavam entre outros, Mário Soares e Octávio Pato, que assinava Octávio Rodrigues...

Em 1946-47 pintei um fresco com mais de 100 m2 no Cinema Batalha, do Porto, encomenda particular que haviam tido a audácia de me confiar e eu a audácia assim destemperada em propor-se e aceitar. Tinha vinte anos. Casara-me. E no intervalo dos andaimes, num quarto minusculo onde dormia, pintei o «Almoço do Trolha» que anda para a frente e para trás quando se trata de evocar o neo-realismo. A PIDE prendeu-me antes do mural estar pronto. Como utilizava a técnica tradicional do fresco, em que cada fragmento tem de ser pintado de uma só vez antes da secagem da parede, o canto inferior direito (cerca de 4 m2) ficara nú. Assim abriu o cinema e o público acorreu e indagou e soube porquê. Quando saí da prisão acabei o fresco rapidamente, nas horas em que o cinema não funcionava. Depois a PIDE mandou que ele desaparecesse e ele foi tapado. O «Almoço do Trolha» não teve destas desgraçadas honras. Mas quando o expus, o quadro que lhe estava ao lado e se chamava «Resistência» foi apreendido no assalto da PIDE à Sociedade Nacional de Belas-Artes durante a segunda Exposição Geral de Artes Plásticas, [Maio, 1947] estava eu preso.

Júlio Pomar, in Helena Vaz da Silva com Julio Pomar, Afinidades Electivas, 1979



quarta-feira, fevereiro 11, 2009

António Lopes de Almeida (1913-1949)

(22.2.1913 - 21.1.1949)
A sua morte ocorreu a 21 de Janeiro de 1949. Em plena campanha eleitoral para as presidenciais com o candidato da oposição Norton de Matos. Por isso passou quase despercebida. A censura impediu que à sua morte se fizesse qualquer referência nas sessões públicas oposicionistas.
António Lopes de Almeida tinha 36 anos, era casado e tinha uma filha de 6 anos. Operário vidreiro, era também músico, e elemento muito considerado na região. Militante do Partido Comunista, era um activo dirigente local e regional. Denunciado, foi preso na Marinha Grande a 16 de Janeiro e entregue à PIDE, em Lisboa, no dia seguinte. Na António Maria Cardoso foi torturado durante dois dias. O então muito jovem Carlos Aboim Inglez cruza-se com ele, por breves momentos, numa sala, antes de serem conduzidos ao Aljube. Fica impressionado. Na sua frente está um homem com a cara «num bolo» de sangue e equimoses, que lhe murmura: «estou há 40 horas a levar pancada». A sua memória jamais apagará o horror daquela imagem, como refere a Miguel Medina (Esboços I). 
No dia 21 é, segundo a polícia política, «encontrado morto», por enforcamento, na cadeia do Aljube. O nome do seu verdugo: Fernando Gouveia.PI
Desde logo todo o processo é altamente suspeito. Levam-no para a Morgue e tentam apressar o funeral. Porém, o jornal República do dia 22 torna o caso público ao anunciar ter dado «entrada na Morgue o cadáver de António Lopes de Almeida». Sabe-se hoje, através da viúva do médico Custódio Maldonado Freitas, na altura em serviço em São José, que foi alertado por um funcionário seu conhecido do Instituto de Medicina Legal. A PIDE não detectara, mas um minúsculo bilhete, escrito a sangue, foi encontrado no bolso do pijama, dizendo: «sou António Lopes de Almeida, da Marinha Grande, avisem a minha mulher». A partir daí não mais foi possível silenciar o caso.
A família desloca-se a Lisboa, faz vários requerimentos, mas nunca lhes é permitido verem o cadáver. Na Marinha Grande os operários paralizam e mobilizam-se para lhe fazerem o funeral. No diz 24, pode ler-se: «Como o Republica noticiou ante-ontem, morreu em Lisboa o operário da Marinha Grande, Antonio Lopes de Almeida. Os seus colegas marinhenses resolveram prestar-lhe, neste momento, o seu último tributo de homenagem, fazendo, a seu cargo, o funeral para a Marinha Grande. Em sinal de sentimento, suspenderam o trabalho os operários vidreiros da Fábrica Marquês de Pombal, sendo grande a consternação em toda a população.» (Republica, 24.1.49) Mas a PIDE consegue os seus intentos e realiza o funeral, para o cemitério de Benfica, em Lisboa, a 29 de Janeiro.
Nunca se saberá se António Lopes de Almeida morreu às mãos da PIDE ou se suicidou, por enforcamento, como alegaram. Invocam que se suicidou, após ter denunciado a organização do PCP de que era dirigente. No entanto, do seu processo não consta qualquer auto de perguntas que lhe tenha sido levantado, como a própria polícia (Fernando Gouveia) refere à Policia Judiciária, dada a necessidade de que esta «comprove o suicídio». Pedem que seja apensado o relatório da autópsia e afirmam que não houve quaisquer testemunhas do ocorrido. O processo ficaria encerrado com o aval de José Catela, em 19 de Maio de 49.
É possível que não tenha aguentado as torturas. É possível que, perante isso, tenha optado pelo suicídio. Nem todos são heróis. E nem por isso deixam de ser homens de carácter. Mas também é muito provável que tenham sido outros os denunciantes e, perante o sucedido, tenha sido fácil atribuir culpas a quem já não podia defender-se.
Maria da Piedade Almeida, a viúva, nunca deixou de fazer esforços para levar o corpo do marido para a Marinha Grande. Numa petição dirigida ao Ministro do Interior, em Abril, dizia:
«É já pela segunda vez que me dirijo por escrito a V.Exa., fazendo esta mesma petição, não só em meu nome, mas também da mãe e irmã, que desta vez não puderam vir, por falta de recursos.
Foi-nos dito então pelo Ministério de V.Exa., e após a primeira petição em papel selado, que já tinha sido deferido e enviado para o Governo Civil, juntando-se ao requerimento que lá se encontrava da agência funerária que tratou do funeral.
Informaram-me nessa altura, no Governo Civil, e a PIDE já nos tinha dito antes também, que seguiria sim, mas só daí por trinta dias.
São vencidos mais de sessenta dias e ainda o corpo nesta cidade se encontra, e como no dia 5 do corrente, nos disseram no Governo Civil, da parte do próprio Governador, que este requerimento estava a despacho no Ministério de V.Exa., fico confusa sem saber que pensar, voltando por isso a rogar-lhe encarecidamente pronta decisão para este caso.
É tão pouco o que peço a V.Exa, e para mim, apesar de triste e desoladora consolação, era grande alívio e um bem íntimo, chorar junto da sua sepultura, sempre que me sentisses sem forças para criar uma filhinha que me deixou com 6 anos.»
Despacho do Ministro A Cancella de Abreu em 7 de Abril de 49: «Não considero ainda oportuna a solicitada transferência, o que deve se comunicar à interessada.»
Desconheço se o corpo de António Lopes de Almeida alguma vez chegou a regressar à sua terra. Talvez depois de Abril, quando a Câmara Municipal atribuiu o seu nome a uma rua da Marinha Grande.
Esta morte violenta e injusta raramente é referida e o seu nome não faz parte da habitual galeria dos «heróis da resistência». Por isso lhe presto as minhas homenagens, no momento em que passam 60 anos sobre o ocorrido.
Carlos Aboim Inglez, porém, nunca esqueceu o homem com quem se cruzou na sua primeira prisão, em 18 de Janeiro de 1949. Aqui fica o poema que lhe dedicou, inserido no livro póstumo, Soma Pouca.
 
A António Lopes de Almeida

Caíste por terra amigo na terra negra e dura
das pragas e das lágrimas e do suor não cumprido.
Caíste por terra amigo. E a terra toda abriu-se
como não se abrira ainda aos rogos da tua esperança.

Caíste por terra amigo caíste por terra amigo
E a terra será toda de luto até ao dia claro e largo
Porque lutaste porque viveste porque morreste
Até ao dia
Em que floriremos teu sangue na terra onde caíste. 

JC
Bibliografia:
- Arq. PIDE/DGS - ANTT - Proc- SC-PC 428/49 - 5007
- Arquivo MAI-GM-GBT-15/1949 -
- Presos Políticos no Regime Fascista V - 1949-1951, Presidência do Conselho de Ministros, Maio 1987