quarta-feira, novembro 26, 2008

Casa da Achada - Centro Mário Dionísio

EXPOSIÇÃO 28 Novembro das 15h - 20h
LEILÃO d'ARTE, 29 Novembro, a partir das 15h
Todo o produto do leilão reverterá para o arranque do
Centro Mário Dionísio

A Casa da Achada já foi adquirida pela família.
O projecto é do Arqtº Hestnes Ferreira.
Os artistas plásticos doaram as suas obras.

Se todos fizermos um pequeno esforço em breve teremos o espólio de Mário Dionísio à disposição dos amantes da arte e da cultura!

domingo, novembro 23, 2008

No 1º Colóquio sobre «Pável»/Antonio Rodríguez

(Portugal 1908-México 2008)
Com a presença da sua filha, Zínia Rodríguez, realizou-se ontem um colóquio de homenagem a Francisco Paula de Oliveira, «Pável», António Rodriguez, na Biblioteca-Museu República e Resistência. Deixo-vos aqui a comunicação por mim apresentada:


PÁVEL/ANTONIO RODRIGUEZ, O HOMEM DE CULTURA

«Lisboa, a cidade onde nasci, vivi e frequentei as três grandes universidades da minha vida: o Arsenal, as prisões e o Partido. (…) tudo o mais foi uma questão de estudo e de trabalho» (Pável, carta a Stella Piteira Santos, 28.12.1988)

Quando, em Outubro de 1976, a Fundação Calouste Gulbenkian acolhe a exposição "Máscaras Mexicanas", a Secretaria de Estado da Cultura patrocinou a vinda de Antonio Rodríguez a Lisboa para proferir três conferências sobre arte mexicana. Sabia-se que António Rodríguez e «Pável» eram a mesma pessoa, desde o verão de 74, quando Francisco Ferreira o revelou, na revista do Expresso. Sabia-se que o mítico dirigente comunista dos anos trinta se refugiara no México, adoptara uma nova identidade e ascendera às elites culturais daquele país, sendo considerado o maior especialista em Muralismo Mexicano. Conhecia-se ainda o entusiasmo com que acolhera a revolução do 25 de Abril e como desejava ardentemente voltar ao seu país.
Quando, a 3 de Novembro, proferiu a primeira das suas conferências na Fundação Gulbenkian, dissertando brilhantemente sobre a estética muralista, essa arte que os pintores mexicanos criaram com o povo e para o povo, se, por um lado, se comprovou a inteligência superior do antigo operário arsenalista, por outro, sobressaiu a dificuldade que tinha com a língua portuguesa.
Antonio Rodríguez teria oportunidade de apresentar as suas desculpas pelo facto — mal recebido por alguns que facilmente se distraem do essencial — de se expressar em castelhano na sua pátria, quando afirmou emocionado, mas com elegância e lucidez, num jantar em sua honra: «pode-se falar mal uma língua estrangeira, mas não se pode falar mal a nossa própria língua»[i].
A verdade é que Francisco Paula de Oliveira, cidadão português, viveu em Portugal até aos 30 anos, os últimos 10 já na clandestinidade, como «Pável». O restante mais de meio século de vida deste homem excepcional, que viria a falecer em 1993, aos 84 anos, foram vividos pelo cidadão mexicano António Rodríguez, com família constituída na sua segunda pátria, perfeitamente inserido na sociedade do país que o acolheu, como assume, ao confessar: «após a perturbação dos primeiros tempos, liguei-me imediatamente ao povo mexicano: estudando a sua história, a sua cultura, a sua arte e fazendo meus os seus problemas.»[ii]
Entre a data da chegada àquele país e a data da sua primeira vinda a Portugal (1976) mediaram praticamente 40 anos, durante os quais pouco ou nada falou português, enquanto o castelhano se tornava numa ferramenta de trabalho imprescindível para a profissão da escrita, que escolhera.
Mas o que importa salientar é que a cultura portuguesa esteve sempre presente na vida de António Rodríguez, nos seus hábitos pessoais (em sua casa comia-se bacalhau, ensinava canções portuguesas aos filhos) e também na sua obra, onde abundam as referências culturais portuguesas, como em «El Quijote, mensaje oportuno» ou no opúsculo «Saudade», escrito no rescaldo da primeira visita a Lisboa.
Profundamente reconhecido ao país que o acolheu, dirá então, numa entrevista: «cheguei [ao México] com 31 anos, pronto a renascer e estou muito contente por ter encontrado um país difícil, cheio de problemas, que me deu a possibilidade de realização como homem e, dentro das minhas limitações, de o servir também» porque, afirma mais adiante, «o que interessa é lutar, não importa o sítio».[iii]
Estivera duas semanas em Lisboa. Tinha cerca de 70 anos e na altura escrevia em vários periódicos, era professor de jornalismo na Universidade Nacional Autónoma, fundara e dirigia uma revista cultural de grande prestígio, editada pelo Museu Tecnológico da Cidade do México (do qual fora director durante 11 anos), tinha vários ensaios entre mãos e recebera já vários prémios literários dentro e fora do país. Era ainda promotor e consultor da prestigiada e internacionalmente conhecida Galeria de Arte Estela Shapiro.
Ao assinalarmos os cem anos do seu nascimento (29.10.1908), uma pergunta se nos impõe: como foi possível a alguém que nasceu numa família humilde, começou a trabalhar aos 11 anos, foi operário do Arsenal da Marinha, sem quaisquer estudos académicos, autodidacta, tornar-se na grande referência cultural que todos reconhecem, mercê apenas do seu esforço pessoal? Quais as motivações e as influências que moldaram o seu carácter e o seu percurso de homem e de esteta?
Em 1988, ao evocar a sua cidade natal, que há pouco visitara pela segunda e última vez, «Pável» refere-se a «Lisboa, a cidade onde nasci, vivi e frequentei as três grandes universidades da minha vida: o Arsenal, as prisões e o Partido (…) tudo o mais foi uma questão de estudo e de trabalho»[iv], fornecendo-nos, assim, a chave para a compreensão do fenómeno Pável/António Rodríguez.
Se, como ensina Bento de Jesus Caraça, «a vida de todo o homem é uma construção permanente, feita das acções recíprocas que entre ele e o meio se desenvolvem»[v], podemos então dizer que os primeiros 30 anos de vida de Francisco Paula de Oliveira/Pável terão sido determinantes para a formação cultural e cívica do futuro Antonio Rodríguez, tal como o «renascimento» mexicano a que se dispôs, e que não é mais que a integração e a sintonia com os homens, a arte e a sociedade do seu tempo e lugar: o Homem de Cultura e de Acção, em que veio a transformar-se, forjou-se nestas duas componentes temporais de uma mesma personalidade, cruzada por múltiplas vivências e receptiva ao seu tempo.
Para os jovens da geração de Pável, nascidos com a República e envolvidos socialmente, a Educação e a Cultura eram causas dominantes e objectivos de vida. A educação e a cultura como formas de realização pessoal e factores de progresso da sociedade, impunham-se-lhes como aquisição paralela à da consciencialização política.
Quando Pável afirma que «o Alfeite era uma autêntica universidade»[vi], está a dizer-nos que os jovens operários arsenalistas, de uma maneira geral, sentiam a cultura como um dever de classe e tudo faziam para se cultivarem, nomeadamente apostando no convívio, na camaradagem e na solidariedade, na troca de conhecimentos entre eles, o que era, e é também uma forma rica e generosa de aprendizagem. Atentemos nas palavras de Pável: «no Arsenal da Marinha fui, aliás como quase todos os meus colegas, um estudioso. O Arsenal funcionava um pouco como uma elite operária e foi aí que tive contacto com a literatura, com a filosofia e com os grandes problemas do nosso tempo. Os idiomas russo e francês foi lá que os aprendi e também foram esses contactos que me levaram a frequentar, à noite, escolas industriais e comerciais apenas para receber as aulas de literatura».[vii]
É fácil perceber que a estes jovens não interessava uma cultura enciclopédica mas sim uma cultura universalista, que passava por conhecer e assimilar o pensamento daqueles a quem Bento Caraça chamou as «grandes figuras morais contemporâneas» como Romain Rolland, Maximo Gorki, Malatesta, Guerra Junqueiro, Émile Zola, Dostoievsky, Victor Hugo, Anatole France, Pasteur, Einstein, Tolstoi,[viii] mas também Durer, Camões, Cervantes e muitos outros que a Universidade Popular Portuguesa, sob o lema «A ciência e a Cultura ao alcance de todos», tanto se empenhou em divulgar nos anos 20/30, em acções concertadas com os sindicatos (entre eles, o dos arsenalistas) e outras agremiações populares, até se ver cerceada pela censura e ficar restringida às próprias instalações.
É muito provável que Pàvel e Caraça tenham contactado em diversas ocasiões, nomeadamente no Sindicato dos Arsenalistas. Mas quando em 1937 Pável regressa da União Soviética e dirige o Partido, vai obrigatoriamente ter contactos com Caraça, directamente, ou através de Alberto Emílio de Araújo, membro do Secretariado. E, fundamentalmente, com o seu pensamento cívico-político-cultural, assimilando essa «nova cultura política»[ix], como lhe chamou Tengarrinha, ou seja, a política de unidade então amplamente ensaiada com a Frente Popular Portuguesa, constituida em Outubro de 35 e extinta em 38, e para a qual o contributo do Prof. Caraça foi decisivo.
Ainda no âmbito do movimento frentista, Pavel contacta com diversos intelectuais fora do nosso país, a acreditar numa intervenção que faz na reunião da IC em Abril de 36, onde refere: «em Paris... falei com um intelectual que é considerado o maior matemático que temos em Portugal. Ele propôs-se aderir ao Partido Comunista porque diz que é a única força que luta contra o fascismo».[x] Tudo indica tratar-se de Aniceto Monteiro, o matemático que em 1936 se doutorou em Paris, no Instituto Henri Poincaré, com o estudo "Sur l'Activité des Noyaux de Freedholm”.
Conforme conta na sua autobiografia, foi nas enfermarias da prisão e nos sanatórios por onde passou, sobretudo no Caramulo, onde permaneceu um ano, devido a problemas pulmonares que só curou na União Soviética, que Pável estudou os teóricos marxistas e aprendeu a língua russa.
Na célebre conferência «A Cultura Integral do Indivíduo», de 1933, Bento de Jesus Caraça enunciara a noção de Homem Culto, e passamos a citar:
"O que é o homem culto? É aquele que: 1º — Tem consciência da sua posição no cosmos e, em particular, na sociedade a que pertence; 2º — Tem consciência da sua personalidade e da dignidade que é inerente à existência como ser humano; 3º — Faz do aperfeiçoamento do seu ser interior a preocupação máxima e fim último da vida" [xi]
Este enunciado veio a tornar-se no paradigma de sucessivas gerações. Pável, para além de um jovem muito estudioso e de grande curiosidade intelectual, era um leitor compulsivo e amante das artes. Maria Nogueira Soares, sua primeira companheira e com quem tem um filho em 1928, revelou à revista Cambio16, que já nessa altura «todo o dinheiro que apanhava era para comprar livros»[xii]. Por sua vez, Pedro Rocha, um jovem camarada com quem partilha a direcção e organização das Juventudes Comunistas, refere nas suas memórias: "às vezes, nas horas vagas [da actividade política], líamos algumas páginas de bons autores. Anatole France era um dos autores predilectos de Pável que conhecia bastante bem o francês e lia, em voz alta, passagens de Thaïs e da Ilha dos Pinguins, no original. Eram horas de distracção para os nossos espíritos bem atribulados"[xiii]. Também Edmundo Pedro, que o conheceu ainda muito jovem, dá dele o seguinte testemunho: «interessava-se pela história, pela literatura, pela pintura, pela música. Ele, como outros operários do Arsenal, assistia naquele tempo, regularmente, às temporadas de ópera do Coliseu dos Recreios (…) era dotado não só de uma brilhante inteligência como de uma desmedida vontade de se cultivar»[xiv] Carolina Loff, que com ele conviveu na União Soviética refere-se-lhe como «um autodidacta de raras capacidades. Um homem extremamente culto» que «passava o tempo a estudar e a ler». [xv]
A influência da literatura em Pável projecta-se na sua própria vida. A admiração por Emile Zola fá-lo dar ao filho, nascido em 1928, o nome Germinal, título de um dos livros do escritor francês; enquanto a que nutre por Anatole France não pode desinserir-se da atitude digna e corajosa que este tomou no caso Dreyfus, colocando-se ao lado de Zola e devolvendo ao governo francês a sua Legião de Honra, quando a mesma foi publicamente retirada àquele escritor. Por sua vez, será ao protagonista de A Mãe, de Máximo Gorki, que vai buscar o pseudónimo «Pável», que adopta para a vida clandestina.
«Sempre utilizei o meu tempo livre para visitar museus, para tomar contacto com outras culturas e outros interesses»[xvi], diz. Os dois anos que passou na União Soviética tiveram uma importância extraordinária no seu desenvolvimento cultural, pois, segundo palavras suas, foi-lhe dado «conhecer a literatura, a pintura e a cultura russas» e, como «dedicava grande parte do seu tempo ao estudo, em particular de obras de arte», e frequentemente encontrava interlocutores cultos com quem podia conversar, fácil é perceber como se lhe foram desvendando horizontes até aí interditos, como, aliás, estavam interditos à generalidade dos portugueses, pelo grande atraso das nossas artes.
Se somarmos a isso as visitas ao Prado quando visitou Madrid em 1932, e os meses que passa em Paris com Álvaro Cunhal, em 1936, e que aproveita para — e, mais uma vez, o citamos — «ir ao Louvre, esse verdadeiro templo do conhecimento»[xvii], aprofundando esta área de interesse que se lhe impõe cada vez com maior acuidade, podemos concluir que, no regresso a Portugal, Pável estava já a caminho do Homem de Cultura que mais tarde veio a ser. Muito próximo, sem o saber, do futuro Antonio Rodríguez.
«Escritor, jornalista, combatente social, professor e crítico de arte» — assim é referido Antonio Rodríguez (Portugal 1908, México 1993) no Dicionário dos Escritores do México, um cidadão português naturalizado mexicano. Ele não ficou para a História como o cidadão espanhol, do qual se viu obrigado a tomar o nome em 39. Rodríguez nunca deixou de ser português, o jovem revolucionário que chegou ao México com vontade de «renascer» mas sem abdicar de si. Esta postura reflecte a verticalidade de um homem que confessa ter-se mantido «fiel aos princípios da juventude», que nunca esqueceu as suas raízes e que «voltaria a fazer tudo igual»[xviii].
Do conjunto de obras que o dicionário enuncia, apenas uma nos foi dado ler: «El Quijote, mensaje oportuno», um pequeno/grande livro editado em 1947, que recebeu o primeiro prémio de Ensaio e teve, desde então, inúmeras edições. Trata-se de um livro essencialmente didáctico, imbuído dos mais nobres ideais de paz e concórdia entre os homens e que, por isso mesmo, o México fez editar em livro de bolso, na Biblioteca Jovem, uma colecção patrocinada pelo Fundo de Cultura e destinado à juventude daquele país. Nele, o autor mostra a mensagem profunda que se oculta sob a aparência superficial e galhofeira do livro. A esperança numa sociedade nova, que os protagonistas colocam no passado, mas que só o futuro pode concretizar. Uma sociedade anticapitalista, de nobres ideais e onde os Homens se aceitem e solidarizem. Uma sociedade justa.
Aqui, no seu país, Antonio Rodríguez é desconhecido. As fontes de que dispomos são nulas. Apenas existe, na biblioteca de arte da Fundação Calouste Gulbenkian, a Historia da Pintura Mural no México — El Hombre en Llamas — uma oferta sua, em 76. Trata-se de uma obra monumental, de excepcional fôlego, que a Gulbenkian teve a amabilidade de nos emprestar e se encontra na nossa exposição. Uma preciosidade para os investigadores que se interessam pelo muralismo, uma expressão que entre nós não tem sido valorizada.
Os restantes livros, alguns também aqui expostos, estão nas mãos de particulares, inacessíveis, portanto, a quem queira conhecer o pensamento e a arte de Antonio Rodríguez. Seria de extrema importância para a cultura portuguesa que na Biblioteca Nacional de Portugal existissem os seus livros. E daqui faço um apelo à família Rodríguez, a sua filha Zinia, para que, em conjunto com aquela instituição portuguesa, tudo faça para trazer alguns desses livros para o nosso país. Um apelo igualmente ao Ministro da Cultura: o pensamento de Antonio Rodriguez tem que ser dado a conhecer aos portugueses. Há que investir nele. É uma questão de cultura e de justiça.
De justiça seria também que os editores portugueses apostassem na tradução e edição dos seus livros. À nossa historiografia artística fazem falta os estudos de Rodríguez na área. Como fazem falta os seus ensaios, os seus estudos históricos e antropológicos, o pensamento universalista que sempre o animou e fez ombrear com os que sofrem e lutam, numa inequívoca opção social. E por que não as crónicas e artigos anti-salazaristas que enquanto jornalista nunca deixou de escrever e que o levou a figurar no index da embaixada de Portugal no México?
Neste colóquio iremos ouvir o próprio Pável/A. Rodríguez numa gravação feita em 1988, quando pela segunda e última vez esteve em Portugal. Iremos escutar uma autêntica lição sobre a Arte Mural mexicana. Dir-nos-á da forma como esta se lhe revelou. Como se surpreendeu ao encontrar, nas paredes dos edifícios oficiais de um país capitalista, as lutas, as dores e as alegrias dos operários e camponeses mexicanos. E de como o seu sentido estético e humanista se solidarizou de imediato com essa expressão artística. Até então, a arte popular era ignorada. Os historiadores locais não a valorizavam. Foi Pável, um ser humano de rara sensibilidade e com uma base ideológica que o predispunha a isso, quem primeiro a entendeu. Ele foi o teorizador e o arauto de uma estética que exaltava o povo. Valorizou-a e divulgou-a. Fez com que os mexicanos se orgulhassem dela. Mas, melhor que eu, disto vos falará o Mestre Antonio Rodríguez.
Quando em 1976, uma jornalista lhe perguntou se não tinha por vezes "saudades do Pável", respondeu: «Não. Porque o que interessa é lutar, não importa o sítio. E sempre há algo para defender e tempo para militar. Você sabe que escrever implica isso».[xix]
Mas sentia saudades, sim. Não fora impunemente que se reencontrara com Francisco de Oliveira Paula/Pável e o seu passado. A saudade, esse sentimento tão genuinamente português, que agora, mais que nunca, se lhe impunha, leva-o a reflectir sobre a fenomenologia saudosista e a escrever um pequeno livro – Saudade – , que oferece aos amigos no Natal de 1978 «como uma mensagem de esperança». Essa mesma «esperança da qual a Saudade tanto se alimenta»[xx], numa dualidade simultaneamente amarga e doce, tal como dual e agridoce foi a vida e a pessoa de Pável/Antonio Rodriguez.
Portugal, o país deste Homem notável, desconhece-o. É obrigatório conhecê-lo.

[i] O Jornal 26.11.76
[ii] AR, Jornal Novo, 30.11.76, p.7
[iii] AR, Jornal Novo, 30.11.76, p.7
[iv] AR, carta a Stella Piteira Santos, 28.12.1988
[v] BJC, carta a Carlos Amaro, 3 Set 1939
[vi] AR, Sábado 19.11.1988, p.36
[vii] AR, Sábado 19.11.1988, p.36
[viii] BJC, entrevista a Republica 24.3.1933
[ix] JM Tengarrinha, centenário de BJ Caraça, 2001
[x] ICS – F. 495, OP.18, D.1099 / AHS. DOC. 110, MAÇO 30, CAIXA 2
[xi] Bento de Jesus Caraça, Conferências e Outros Escritos, 1978, p.51
[xii] Revista Cambio16, de 4.10.1993
[xiii] Pedro Rocha, Escrito com Paixão, 1991, Caminho, p. 39
[xiv] Edmundo Pedro, Memorias, p.99
[xv] Revista Cambio16, de 4.10.1993
[xvi] AR, Jornal Novo, 30.11.76, p.7
[xvii] AR, Sábado, 19.11.1988
[xviii] AR, Sábado, 19.11.1988
[xix] AR, Jornal Novo, 30.11.76, p.7
[xx] AR, Saudade, Cidade do Mexico, edição de autor, 1977/78

sexta-feira, novembro 21, 2008

No centenário de «Pável» / Antonio Rodriguez


Amanhã, 22 de Novembro, às 16 horas, no Museu Republica e Resistência (cimo Rua da Beneficência), vai ser homenageado este lutador antifascista, vítima da ditadura de Salazar, que, no México onde se exilou, veio a ser um prestigiado professor, escritor e critico de arte, especialista em Muralismo.
Através de gravação áudio, ele próprio nos dirá desse percurso

domingo, novembro 16, 2008

João Abel Manta: Caprichos e Desastres

É tão raro podermos ver as obras deste artista, que podemos considerar um autêntico privilégio esta Exposição, precisamente no ano em que Mestre João Abel Manta completa 80 anos de vida e 60 que foi preso pela PIDE.

18 Nov, 3ª feira, 19 horas

domingo, novembro 02, 2008

A tanto chegava a abjecção!

(uma visita aos arquivos da PIDE/DGS)
Ali estava ele na ampla sala de leitura da nova Torre do Tombo, à espera que lhe trouxessem os documentos requisitados. Consultava, finalmente, o seu processo nos arquivos da PIDE/DGS. (...)
Pessoalmente não tinha nenhum prazer em regressar a esse mundo da PIDE/DG, que só muito palidamente aflora nos seus arquivos.
Sim, lá não estão: o suplicio da tortura, as dores dos espancamentos, as alucinações da privaçao do sono, a angústia da incomunicabilidade sem fim, o medo dos interrogatórios feitos por uma roda de esbirros, o pesadelo dos longos anos de prisão, a permanente incerteza do dia de amanhã para quem caia nas garras dos torcionários e para os que viviam permanentemente perseguidos por eles, como acontecia com os clandestinos.
Bastou-lhe, no entanto, o propósito de consultar os arquivos, as formalidades para proceder à consulta e o período de espera que estava agora a viver, para que tudo isto lhe viesse a pouco e pouco à memória. Nunca tivera pressa de saber o que se dizia lá a seu respeito, ao contrário de outros que correram à Antonio Maria Cardoso «para consultar a ficha» (...) talvez por que tinha a consciência absolutamente tranquila quanto ao seu comportamento sempre que enfrentara aquela máquina de terror e de desonra e, além disso, não tinha a menos espécie de vocação masoquista. Ou seria antes por que se entregou de alma e coração à revolução, muito mais virado para o futuro que se queria construir, do que para o passado que se devia soterrar para sempre?
(...)
A primeira peça que o interessou foi um volume que constituia o auto das apreensões feitas pela Pide de uma das vezes que lhe assaltara a casa. Lá estavam alguns raros jornais e folhetos clandestinos, pois tinha o cuidado de não os guardar depois de lidos, mas muitos manifestos, declarações, apelos, tarjetas, selos dos movimentos oposicioistas, legais e semi-legais, rascunhos de artigos da sua autoria, versando matéria mais ou menos política. Achou óbvias estas apreensões. A sua indignação começou quando deparou com um diploma de curso, cuja falta lhe causara os maiores transtornos profissionais. Procurara-o por toda a parte, inclusivamente em casa dos pais e dos avós, nunca pensando que pudesse ter sido objecto de apreensão pela PIDE.
- Com que direito! - interrogou-se interiormente, mas era tanta a veemência da sua pergunta que deve ter produzido alguns sons, pois vários rostos se viraram, com expressa reprovação, na sua direcção.
O espanto indignado que começara a possui-lo não cessava de aumentar à medida que ia encontrando cartas pessoais da mulher, da mãe, dos amigos tratando questões familiares, as mais pessoais e íntimas, mesmo sobre doenças, partilhas, situações afectivas - tudo o que a devassa pidesca abocanhava.
- Com que direito? - Era a pergunta que lhe vinha das entranhas e que tinha de sufocar para não perturbar os restantes leitores.
Não conseguiu ficar sentado, quando, entre muitas outras fotografias, apreendidas, deparou com vários retratos do irmão, já então falecido, dispostos numa fila, com vistas de vários ângulos, como a indicar que se tratava de um elemento suspeito.
(...)
Veio-lhe então às mãos uma peça que continha um conjunto de cartas de «bufos» com denúncias sobre uma viagem que em certa altura fizera ao Algarve, para visitar os pais e outros familiares. Davam informações precisas das terras onde tinha estado, o que fizera, pessoas com quem se tinha encontrado.
Um das cartas informava da descida do Guadiana que tinha feito num barco de carreira - o «gasolina» - que então estabelecia ligação entre Mértola e Vila Real de Sto Antonio, acostando a Alcoutim e parando ao largo de outras povoações ribeirinhas. Referia, velhacamente, como «contactos», as conversas que tivera a bordo com diferentes pessoas, indo ao ponto de identificar algumas delas. Nunca podia ter imaginado que fosse seguido com esta minúcia pelas forças policiais. Os «bufos» algarvias deviam ter sido alertados por ordens de Lisboa.
- Caramba, como o nosso país estava minado! - Comentou para si.
Viu então a última carta do conjunto. Era um «bufo» que o denunciava como tendo participado e dirigido uma reunião em Aljezur. Tratava-se de uma rematada mentira, não estivera em Aljezur, nem de lá se aproximara, nessa viagem.
Ali estava a confirmação de como os «bufos» ao serviço da PIDE, além de denunciarem o que escutavam, observavam ou que de qualquer forma conheciam, faziam também denúncias que sabiam ser falsas, chegando a enganar os comandos repressivos, por razões de pura vingança contra os denunciados ou para mostrarem serviço, os que recebiam subsidios regulares, ou ainda para ganharem mais algum, os que eram pagos à peça, por denúncia apresentada.
- A tanto chegava a abjecção! (...)


Carlos Brito, águas do meu contar, campo das letras, 2002