sexta-feira, julho 08, 2011

No adeus a António Jorge Branco (1937-2011)

(1937-2011)


Na hora da partida no António Jorge Branco faço minhas as palavras do Fernando Pinto.
Também eu fiz parte desta geração que ele descreve e que fez do After Height simultaneamente um refúgio e um local de liberdade. Tal como na «velha Lontra»... Obrigada, Fernando. Até sempre, António Jorge.



ANTONIO JORGE BRANCO

Estava hoje determinado em prosseguir a linha de textos que tenho vindo a elaborar, que se enquadram na tentativa de compreensão do nosso presente, na busca de sentido para o nosso futuro e nas formas de os conseguir. É uma reflexão que entendo todos devemos fazer para nos referenciarmos neste turbilhão de informações e contra-informações, de dúvidas e dívidas, de cupabilizações e descupabilizações e de contradições e confusões em que hoje nos vemos mergulhados. Contudo, esta época do ano é inclemente para quem está fisicamente debilitado e, talvez devido a esse facto, tenho perdido alguns amigos mais velhos e mais frágeis. E isso também me fez pensar na brevidade e no sentido desta nossa vida, e no exemplo que muitos constituem. Que eu tenha conhecimento, o último amigo que me deixou foi o António Jorge Branco. Jornalista de profissão, homem íntegro por opção, músico por paixão, o António era meu amigo há uma trintena de anos. No entanto, habituei-me a ouvir a sua voz bem timbrada há muito mais tempo quando, ainda puto, de férias em casa dos meus avós e obrigado a deitar cedo, metia o rádio dentro da cama (um “transístor” do tamanho de um tijolo…) e o ouvia a ele e á musica que passava, violando as directrizes grã-maternas de “fechar a luz e o rádio”. Isto passava-se, ainda a televisão era um luxo de poucos. Muitos anos depois, conheci um António Jorge que tocava piano num bar que eu frequentava. Tocava por prazer, de ouvido, mas como poucos. Disseram-me “É irmão do Zé Mário…”. Então associei, António Jorge… Branco! Quando finalmente lhe ouvi a voz, não duvidei: era a voz do “locutor” do Porto que fascinava as noites das minhas férias em criança, e perguntei-lhe. Que sim, que era jornalista e que o piano era só uma forma de escape. Contei-lhe da minha infância e assim começou uma amizade. Como gosto de cantar, ali se iniciou um duo ocasional, animando-nos a nós e aos nossos amigos, nessa Lisboa solta e que parecia não ter dia, porque de dia, cada um nas suas profissões, raramente nos cruzávamos. Recordo os irmãos Salomés, o Vitorino, o Janita e o Carlos, o António Victorino de Almeida e a Estrela Novais, o Luís Pignatelli e a Lia Gama e tantos, tantos outros actores, músicos, jornalistas, gente conhecida e gente como eu, anónima mas amante da noite. Para além da música, da noite e, porque não dizê-lo, dos copos, unia-nos uma grande esperança no futuro que então se começava a desenhar em liberdade, saídos que éramos da negra noite da ditadura. Fica-me a integridade, a coerência e a consistência da maioria dos boémios dessa Lisboa, unidos na liberdade daquele naco de noite sem obrigações. Obrigatória era só a conversa, a música, o convívio. Durante anos, aquele bar (para os anais, o “After Eight”, ali à Praça das Flores) foi o lugar geométrico de muitos de nós, a nossa sala de estar, o nosso clube de convívio. Ilusões e desilusões, sentimentos e ressentimentos, amores e desamores, tudo por ali passou. Como pano de fundo, o som do piano do António Jorge, do Rui Madeira, do Carlos Carlos, e de tantos outros, pianistas profissionais ou ocasionais insuspeitos. Hoje, seria um bar de “famosos”, então, era um retiro de gente desejosa que os holofotes se apagassem, que os microfones se desligassem, que fossem tratados como gente normal, que de facto eram e são. Com tanto jornalista por metro quadrado (os metros quadrados eram poucos, mas os jorn, alistas e os famosos, muitos), nunca nada do que ali se passou saltou para os jornais: o respeito pela privacidade era a regra e ali ninguém procurava cachas, notícias sensacionais ou escândalos. Mas tudo tem um tempo e aquele tempo acabou por acabar, acabando até com o tal bar. Muitos anos depois, ainda se tentou mudar de poiso e de novo se pediu ao António Jorge que reanimasse as noites moribundas. Debalde! O Tempo tem um tempo que só ele sabe e já nem mesmo o António Jorge, com toda a poesia que lhe saia das mãos quando as sobrepunha a um piano, conseguiu reanimar as noites da anunciada decadência. A Velha Guarda estava desmobilizada, dispersa, tratando dos netos, e a Nova, ainda em gestação, talvez em formação. E lá voltou ele prá sua TSF, tecendo com o amor e o saber que sempre pôs em tudo, as suas Lendas e Calendas dos seus Portugais Passados nos Dicionários da Rádio que tanto acarinhou. Hoje, ele, eu, os outros, encontramo-nos se calha, onde calha, e lá renovamos a cantoria, o convívio, a bebedoria (já menos, é certo) porque a amizade, essa, está fora de questão que algum dia sucumba. Mesmo que o António Jorge, como outros mais, tenha decidido que nunca mais voltaria a aparecer, continuaremos a celebrar e a celebrá-lo, embora saibamos que nada voltará a ser como dantes. Li nos jornais de segunda-feira: ”O jornalista António Jorge Branco, um dos fundadores da TSF, morreu hoje aos 74 anos de idade, disse fonte da estação de rádio à Lusa. António Jorge Branco, que actualmente não se encontrava no activo, foi responsável por programas como "Lendas e Calendas", "Portugal Passado" e "Dicionário da Rádio". O radialista foi também presidente do Conselho Deontológico do Sindicato de Jornalistas.” Para mim, para muitos de nós, não foi só o António Jorge Branco que se foi! Foi um símbolo de uma forma de estar na vida, de uma forma de ver e encarar o Mundo, foi mais uma teia que se nos rompeu na memória.

Fernando Pinto

CRÓNICAS AO CORRER DA PENA (504)

07 de Julho de 2011

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